Abstract
Este artigo examina a evolução da estetização da política e da propaganda de massas, traçando uma linha comparativa entre as técnicas cinematográficas de Leni Riefenstahl na Alemanha nazista e as estratégias contemporâneas de propaganda computacional e de inteligência artificial (IA) generativa. Com base nos quadros teóricos de Walter Benjamin sobre a “aura” da obra de arte e a estetização da política e de Susan Sontag sobre o “fascínio do fascismo”, argumenta-se que a IA generativa representa uma nova fase na manipulação de massas. Esta tecnologia amplifica e personaliza as táticas de propaganda históricas, corroendo a “aura” da verdade e contribuindo para um colapso epistémico. Por meio de uma análise crítica-comparativa, o estudo visa oferecer um quadro teórico que conecta a propaganda histórica à digital, destacando continuidades e descontinuidades e explorando as implicações éticas e sociais da IA na esfera pública.
Keywords: Estetização da política, propaganda, Leni Riefenstahl, inteligência artificial, deepfakes, Walter Benjamin, Susan Sontag.
1. Introdução
A crescente dificuldade em distinguir a verdade da falsidade na era digital, exacerbada pela proliferação de conteúdos gerados por inteligência artificial (IA), ecoa preocupações históricas com a manipulação de massas e a estetização da política. Se no século XX figuras como Leni Riefenstahl utilizaram o cinema para moldar narrativas e emoções ao serviço de regimes totalitários, hoje a IA generativa oferece ferramentas com um potencial de persuasão e desinformação sem precedentes. Esta transição levanta questões cruciais sobre a natureza da verdade, a formação da opinião pública e a resiliência das democracias diante de novas formas de propaganda (Pronger, 2025; Woolley & Howard, 2018).
Embora a propaganda nazi e a obra de Riefenstahl sejam amplamente estudadas, e a IA seja um campo de investigação emergente, existe uma lacuna na literatura que integre estas duas eras distintas numa análise coesa da estetização da política e da manipulação de massas. Este artigo procura preencher essa lacuna, examinando as continuidades e as transformações das estratégias propagandísticas, desde a grandiosidade coreografada do cinema de Riefenstahl até à personalização algorítmica da IA generativa (Neudert, 2017; Park, 2025).
A pergunta de investigação principal que guia este estudo é: Como se manifestam e se transformam as estratégias de estetização da política e de manipulação de massas, exemplificadas pela obra de Leni Riefenstahl na propaganda nazista, pelas capacidades da inteligência artificial generativa e da propaganda computacional na era digital?
A tese central deste artigo é que a inteligência artificial generativa e a propaganda computacional constituem um campo de disputa na estetização da política. Embora estas tecnologias amplifiquem e personalizem as técnicas de manipulação de massas observadas na propaganda nazi de Leni Riefenstahl, corroendo a “aura” da verdade e contribuindo para um colapso epistémico, também abrem espaço para formas de resistência e contranarrativas. A capacidade de criar realidades sintéticas convincentes e de disseminá-las de forma direcionada desafia as fundações da perceção da realidade e da confiança pública, mas a própria natureza da IA, como ferramenta de criação e disseminação, também permite a emergência de novas formas de agência e contestação (Han, 2022; Gillespie, 2024).
Para desenvolver esta tese, o artigo está estruturado da seguinte forma: a secção 2 apresentará o enquadramento teórico, explorando os conceitos de Walter Benjamin sobre a “aura” e a estetização da política e a análise de Susan Sontag sobre o “fascínio do fascismo” em Leni Riefenstahl. A secção 3 abordará a propaganda computacional e a IA generativa, com foco na transição da “Grande Mentira” para a “Mentira Viral” e na crise epistémica. A secção 4 detalhará a metodologia analítica. A secção 5 apresentará a análise principal. Finalmente, as secções 6 e 7 discutirão as implicações e concluirão o artigo (Riefenstahl, 1935, 1938).
2. Enquadramento Teórico / Revisão de Literatura
2.1. A Estetização da Política e a Aura da Obra de Arte (Walter Benjamin)
Walter Benjamin, na sua obra seminal “A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica” (1935), introduziu o conceito de “aura” para descrever a singularidade e a autenticidade de uma obra de arte, enraizada na sua história e na sua presença física. A reprodução mecânica, ao democratizar o acesso à arte, destrói simultaneamente essa aura, libertando a obra do seu contexto ritual e permitindo a sua politização. No entanto, Benjamin alertou para o perigo da estetização da política, uma estratégia fascista que, em vez de politizar a arte, transforma a política num espetáculo estético (Benjamin, 1968).
“O fascismo tenta organizar as massas proletarizadas sem alterar as relações de propriedade que estas se esforçam por abolir. Vê a sua salvação em permitir que as massas se expressem (mas não que exerçam os seus direitos). As massas têm direito a uma mudança nas relações de propriedade; o fascismo procura lhes dar expressão na preservação dessas relações. A estetização da política, tal como praticada pelo fascismo, culmina em um ponto: a guerra.” (Benjamin, 1968, p. 241)
Esta estetização da política, segundo Benjamin, serve para desviar a atenção das contradições sociais e económicas, canalizando as energias das massas para a admiração de líderes e símbolos, bem como para a participação em rituais coletivos que suprimem o pensamento crítico em favor da emoção e da submissão. A guerra, neste contexto, torna-se a expressão máxima dessa estetização, transformando a destruição em espetáculo e a morte em sacrifício heroico (Benjamin, 1968).
2.2. O Fascínio do Fascismo: Leni Riefenstahl e a Propaganda Nazi (Susan Sontag)
Susan Sontag, no seu ensaio “Fascinating Fascism” (1974), analisou a obra da cineasta Leni Riefenstahl como o exemplo paradigmático da estetização fascista. Riefenstahl, com filmes como Triumph des Willens (1935) e Olympia (1938), não se limitou a documentar a realidade; ela construiu-a, utilizando técnicas cinematográficas inovadoras para glorificar o regime nazista e seus ideais (Sontag, 1974).
Em Triumph des Willens, que retrata o congresso do Partido Nazi em Nuremberga em 1934, Riefenstahl empregou ângulos de câmara baixos para engrandecer a figura de Hitler, coreografou as massas para criar uma imagem de unidade e poder inabaláveis e utilizou uma montagem rítmica que evocava uma sensação de grandiosidade e destino. A luz e a sombra foram manipuladas para conferir uma aura mítica aos eventos e aos personagens. O resultado foi uma obra que, embora tecnicamente brilhante, serviu como poderosa ferramenta de propaganda, transformando a política em espetáculo e a ideologia em estética (Kershaw, 2008; Evans, 2008).
Em Olympia (1938), a sua obra sobre os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, Riefenstahl aperfeiçoou esta visão, focando-se no culto do corpo e na sua transformação numa escultura em movimento. A câmara lenta, os ângulos dramáticos e a montagem rítmica não se limitam a registar o evento desportivo; criam uma mitologia do corpo ariano, perfeito, disciplinado e triunfante. Este corpo, desprovido de falhas e de individualidade, torna-se um corpo sem aura: um objeto estético purificado, reprodutível e instrumentalizado ao serviço da ideologia. A sua beleza não reside na singularidade, mas na conformidade com um ideal de perfeição racial e física. Esta desumanização estética é um precursor direto da forma como a IA generativa pode, hoje, criar e manipular imagens de corpos “ideais”, não como representações de indivíduos, mas como avatares de uma perfeição sintética e ideologicamente carregada. A obsessão de Riefenstahl com a otimização do corpo por meio da disciplina e da estética pode ser vista como uma forma primitiva de transumanismo, uma aspiração a transcender os limites humanos que, no contexto nazi, estava intrinsecamente ligada à eugenia e à pureza racial. A IA, neste sentido, pode ser vista como a realização tecnológica dessa fantasia de controlo e de aperfeiçoamento do humano, com todas as implicações éticas que tal acarreta (Sontag, 1974; Riefenstahl, 1938).
Sontag argumentou que o fascismo, por meio de Riefenstahl, erotiza o poder e glorifica a submissão, apresentando a ordem, a disciplina e a força como ideais estéticos. O corpo humano, especialmente o masculino, é idealizado e exibido em poses heroicas, simbolizando a pureza racial e a superioridade física. Esta estética, que Sontag descreveu como “fascínio do fascismo”, revela uma atração perigosa pela beleza da dominação e da destruição, em que a forma supera o conteúdo ético (Sontag, 1974).
Importa, contudo, reconhecer os limites heurísticos desta comparação. A propaganda nazista operava num contexto de monopólio estatal da comunicação, de violência institucionalizada e de supressão sistemática da dissidência que não tem equivalente direto nas democracias liberais contemporâneas. A comparação proposta não é de escala, de intenção política ou de gravidade moral – o nazismo permanece um fenómeno historicamente singular na sua dimensão genocida. O que une Riefenstahl à IA generativa é, antes, a lógica estética: o mecanismo pelo qual a forma subordina o conteúdo factual à emoção política e, assim, a beleza técnica torna-se veículo de aceitação de narrativas que, sob escrutínio racional, seriam rejeitadas. É esta continuidade de mecanismo, e não de contexto ou de escala, que fundamenta a análise comparativa aqui desenvolvida (Kershaw, 2008; Sontag, 1974).
2.3. Propaganda Computacional e a Nova Ecologia Mediática
A era digital trouxe consigo uma reconfiguração fundamental das estratégias de propaganda, culminando no que Samuel C. Woolley e Philip N. Howard designou como “propaganda computacional”. Este fenómeno envolve o uso de algoritmos, bots, big data e outras ferramentas digitais para manipular a opinião pública, disseminar desinformação e polarizar o discurso político. Ao contrário da propaganda de massas do século XX, que visava um público homogéneo, a propaganda computacional é hiper-personalizada, adaptando as mensagens aos perfis individuais dos utilizadores (Woolley & Howard, 2018; Howard & Woolley, 2016).
Autores como Tarleton Gillespie (2024), José van Dijck (2024) e Taina Bucher (2018) têm aprofundado a compreensão da “cultura algorítmica” e da “governança de plataformas”, revelando que os algoritmos não são meros instrumentos neutros, mas sim agentes ativos na formação do discurso público e na modulação da visibilidade. A sua influência estende-se desde a moderação de conteúdo até à própria arquitetura das interações sociais, moldando o que vemos, como interagimos e, em última instância, como percebemos a realidade (Gillespie, 2024; van Dijck et al., 2023; Bucher, 2018).
Nuno Santos, num trabalho em desenvolvimento (Santos, N., 2026, manuscrito não publicado)*, propõe uma transição conceptual da “Grande Mentira” – associada a regimes totalitários, como o nazista, em que uma falsidade central é repetida exaustivamente – para a “Mentira Viral”. Esta última é caracterizada pela descentralização, pela proliferação de múltiplas narrativas falsas e pela sua disseminação orgânica por meio de redes sociais e de algoritmos de recomendação. A “Mentira Viral” não depende de uma única fonte autoritária, mas sim da capacidade de se adaptar e replicar em diversos contextos, tornando-se mais difícil de combater.
* Nota: Esta referência corresponde a uma autocitação de um manuscrito em preparação pelo autor e ainda não submetido à revisão por pares. [A referência completa será restaurada na versão final após aceitação.]
Os algoritmos de redes sociais, ao otimizar o engajamento, tendem a criar “bolhas de filtro” e “câmaras de eco”, nas quais os utilizadores são expostos predominantemente a informações que confirmam as suas crenças pré-existentes. Este ambiente é fértil para a disseminação de desinformação e a radicalização, uma vez que as narrativas propagandísticas podem ser direcionadas a grupos específicos com base em dados demográficos e psicográficos, o que aumenta a sua eficácia e impacto (Pariser, 2011; Sunstein, 2001).
2.4. IA Generativa, Deepfakes e a Crise Epistémica
A inteligência artificial generativa, com a sua capacidade de criar textos, imagens, áudios e vídeos indistinguíveis dos produzidos por humanos, representa um salto qualitativo na evolução da propaganda. Ferramentas como os deepfakes permitem a criação de realidades sintéticas altamente convincentes, nas quais figuras públicas podem ser retratadas dizendo ou fazendo coisas que nunca aconteceram. Esta tecnologia desafia diretamente a noção de verdade e autenticidade, uma vez que a evidência visual e auditiva, tradicionalmente considerada fiável, pode agora ser fabricada com facilidade (Chesney & Citron, 2019; Groh et al., 2024).
O impacto dos deepfakes e da IA generativa na confiança pública é profundo. Quando não se consegue distinguir o real do artificial, a base comum de factos necessária a um debate democrático saudável é corroída. Este fenómeno contribui para o que alguns autores designam como “colapso epistémico”, em que a própria capacidade de discernir a verdade torna-se comprometida. Contudo, é crucial analisar este “colapso” não como um estado final, mas como um campo de tensão e disputa, no qual a proliferação de “verdades” alternativas coexiste com esforços contínuos de verificação e de contranarrativas (O’Connor & Weatherall, 2019; Rini, 2017).
Dois conceitos estruturantes desta análise requerem definições operacionais precisas. Por “aura algorítmica” entende-se a aparência de autenticidade e singularidade gerada por conteúdos sintéticos produzidos por IA: uma simulação da presença original benjaminiana que, paradoxalmente, é produzida em massa e desprovida de qualquer “aqui e agora” histórico. A “aura algorítmica” opera por mimese da realidade, não por derivação dela, conferindo aos conteúdos fabricados uma credibilidade perceptiva que prescinde de qualquer fundamento factual. Por “colapso epistémico” entende-se, na esteira de O’Connor e Weatherall (2019) e Rini (2017), a erosão progressiva da capacidade social de estabelecer uma base comum de factos verificáveis: não a ausência pontual de verdade, mas a dissolução das condições de possibilidade do próprio debate factual, no qual a multiplicidade de “verdades” alternativas torna a verificação funcionalmente inoperante a nível do discurso público.
Conforme explora Park (2025), a IA generativa suscita questões sobre a “aura” da arte na era digital, sugerindo que, embora possa criar obras esteticamente impressionantes, a sua origem algorítmica pode impedir a formação de uma aura no sentido benjaminiano ou, paradoxalmente, criar uma “pseudo-aura” de autenticidade fabricada. A capacidade de replicar estilos artísticos e de criar narrativas complexas sem intervenção humana direta desafia as nossas concepções de criatividade, autoria e valor artístico, com implicações para a propaganda (Park, 2025).
3. Metodologia / Abordagem Analítica
Este estudo adota uma abordagem analítica crítica-comparativa e conceptual, visando estabelecer pontes entre fenómenos históricos e tecnológicos aparentemente díspares. A escolha desta metodologia justifica-se pela necessidade de uma lente interdisciplinar capaz de desvendar as continuidades e as transformações das estratégias de estetização da política e de manipulação de massas ao longo do tempo. Em vez de se focar numa análise empírica de dados específicos, o artigo prioriza a exploração conceptual e a comparação de estudos de caso paradigmáticos (Flick, 2018).
Esta abordagem crítica-comparativa e conceptual, alinhada com a teoria crítica e com os estudos culturais, contrasta as técnicas de propaganda de Leni Riefenstahl no contexto nazi com as estratégias de propaganda computacional e de IA generativa na era digital. O foco reside na identificação de padrões recorrentes na utilização da estética para persuadir e controlar, examinando os meios (cinema vs. plataformas digitais), as estratégias de manipulação (coreografia de massas vs. personalização algorítmica) e os impactos na perceção da realidade e na formação da opinião pública. O objetivo primordial não é a validação empírica de hipóteses, mas sim a construção de um quadro interpretativo que revele continuidades e transformações, oferecendo uma base conceptual robusta para futuras investigações empíricas (George & Bennett, 2005; Yin, 2018).
A seleção dos casos empíricos apresentados na secção 4.1.1 obedece a critérios de tipicidade analítica. Seguindo a lógica dos “casos paradigmáticos” proposta por George e Bennett (2005), os exemplos escolhidos não visam à representatividade estatística, mas sim à máxima revelação conceptual: são casos em que os mecanismos teóricos em análise – “aura algorítmica”, “mentira viral”, “erotização do falso” – se manifestam de forma suficientemente nítida para permitir sua identificação e descrição. O caso eslovaco de 2023 foi selecionado por combinar documentação académica disponível, temporalidade circunscrita e articulação clara entre a produção técnica do conteúdo sintético e o seu impacto político mensurável. A referência a campanhas de 2024 cumpre a função de demonstrar a generalização do fenómeno para além de um caso singular (Vaccari & Chadwick, 2020).
O procedimento analítico adoptado é interpretativo-crítico: cada caso é lido à luz dos conceitos teóricos previamente definidos, identificando como os mecanismos de estetização política neles presentes replicam, transformam ou intensificam os padrões identificados na análise histórica da propaganda nazi. Esta triangulação entre quadro teórico, análise histórica e caso contemporâneo constitui o núcleo metodológico do artigo, alinhando-o à tradição da teoria crítica dos media, que recusa a separação entre análise conceptual e evidência histórica e empírica (Adorno & Horkheimer, 2002; Flick, 2018).
4. Análise / Argumentação Principal
4.1. Da Coreografia de Massas à Personalização Algorítmica
4.1.1. Casos Ilustrativos de Propaganda Computacional e Deepfakes
A transição da propaganda de massas para a personalização algorítmica manifesta-se de forma paradigmática no caso dos deepfakes de áudio utilizados na campanha eleitoral eslovaca de 2023. Dias antes das eleições legislativas, circularam nas redes sociais gravações geradas por IA que simulavam a voz do candidato liberal Michal Šimečka, discutindo a compra de votos e o aumento do preço da cerveja – dois temas com ressonância emocional imediata junto do eleitorado. A análise deste caso à luz dos conceitos mobilizados neste artigo é reveladora. Em primeiro lugar, o áudio fabricado operou precisamente como “aura algorítmica”: a imitação dos padrões prosódicos reais do candidato – ritmo, entoação, hesitações características – conferiu ao conteúdo sintético uma aparência de autenticidade indistinguível da voz original para o ouvinte comum, sem que essa aparência decorresse de qualquer ato real de comunicação. Em segundo lugar, a sua disseminação seguiu a lógica da “Mentira Viral”: sem distribuição centralizada, o áudio adaptou-se a contextos diferentes – grupos de WhatsApp, canais de Telegram, partilhas no Facebook -, replicando-se organicamente e tornando a desmentida estruturalmente mais lenta do que a própria propagação. Em terceiro lugar, o motor da sua viragem não foi a verossimilhança informativa, mas o impacto emocional: a “erotização do falso”, no sentido aqui proposto, operou-se por meio do choque de ouvir um candidato “confessar” corrupção – uma experiência visceral que ativou a partilha antes da verificação. Embora rapidamente desmascarado pelos fact-checkers, o seu impacto no período crítico pré-eleitoral ilustra como a estetização algorítmica pode deslocar o debate público do plano factual para o plano afetivo (Vaccari & Chadwick, 2020; Chesney & Citron, 2019).
Outro exemplo estruturalmente distinto é a proliferação de imagens fotorrealistas geradas por IA em campanhas políticas de 2024, documentada em múltiplos contextos nacionais. Ao contrário do caso eslovaco – em que o deepfake simulava um evento comunicativo real – estas imagens não replicam a realidade: constroem-na de raiz. Um candidato nunca fotografado numa determinada situação pode ser visualmente “colocado” nela com perfeição técnica; um adversário pode ser retratado em contextos comprometedores sem que tal jamais tenha ocorrido. É aqui que a “aura algorítmica” opera de forma mais pura: a imagem não deriva de nenhuma presença original, não tem “aqui e agora” benjaminiano, mas simula tê-lo com uma fidelidade que convoca a crença. A estetização é total – a política torna-se inteiramente imagem, e a imagem, inteiramente fabricada. A “política da visibilidade”, identificada por Gillespie (2024), adquire aqui seu sentido mais radical: quem controla a capacidade de gerar uma representação visual sintética e credível controla, em larga medida, o que é percepcionado como real na esfera pública (Gillespie, 2024; Groh et al., 2024).
Estes casos demonstram que a “Mentira Viral” não é uma abstração, mas uma realidade com consequências tangíveis na esfera democrática. A personalização algorítmica, aliada à capacidade de gerar conteúdo sintético, permite que a propaganda opere em escala e com uma precisão sem precedentes, adaptando-se às vulnerabilidades cognitivas e emocionais de cada indivíduo. A estetização da política, outrora orquestrada por cineastas como Riefenstahl para um público massificado, é agora atomizada e reconfigurada por algoritmos e IA, transformando cada ecrã num palco para a manipulação individualizada.
A propaganda nazi, magistralmente orquestrada por Joseph Goebbels e visualmente concretizada por Leni Riefenstahl, baseava-se na criação de um espetáculo unificado para as massas. Em Triumph des Willens, as multidões eram coreografadas em formas geométricas perfeitas, os discursos de Hitler eram encenados com precisão teatral, e a música e a simbologia eram utilizadas para evocar uma experiência emocional coletiva. O objetivo era criar uma ilusão de unidade nacional e de devoção inabalável ao líder, na qual a individualidade era subsumida na grandiosidade do coletivo. A participação era, em grande parte, passiva, de admiração e submissão a uma narrativa imposta de cima para baixo (Kershaw, 2008; Evans, 2008).
Na era da IA, a propaganda computacional inverte esta lógica. Em vez de um espetáculo para as massas, assistimos à fragmentação do público e à personalização algorítmica da mensagem propagandística. Os algoritmos de redes sociais e plataformas digitais analisam vastas quantidades de dados sobre os utilizadores – os seus interesses, crenças, vulnerabilidades – para lhes apresentar conteúdos altamente direcionados. A propaganda já não é uma experiência partilhada, mas uma narrativa individualizada, adaptada para maximizar o impacto emocional e cognitivo em cada recetor (Woolley & Howard, 2018; Howard & Woolley, 2016).
Esta personalização cria uma ilusão de participação e relevância, na qual o utilizador sente que a mensagem é feita “para ele”. No entanto, esta “participação” é, na verdade, uma forma mais sofisticada de manipulação, na qual as bolhas de filtro e as câmaras de eco reforçam preconceitos e radicalizam opiniões de forma quase imperceptível. A propaganda de Riefenstahl era explícita na sua intenção de glorificar o regime; a propaganda algorítmica é muitas vezes insidiosa, disfarçada de conteúdo orgânico ou de informação neutra, tornando-a mais difícil de detetar e resistir (Pariser, 2011; Sunstein, 2001).
Contudo, é crucial reconhecer que a IA e as plataformas digitais não são meramente ferramentas de manipulação unidirecional. A mesma tecnologia que permite a personalização da propaganda também democratiza a produção e disseminação de contranarrativas. Cidadãos e ativistas podem utilizar ferramentas de IA para criar e distribuir mensagens alternativas, desafiando as narrativas dominantes e expondo a desinformação. Esta capacidade de “contrapropaganda” algorítmica representa um contraponto importante à centralização do poder mediático, oferecendo potencial para a resistência e a diversificação do discurso público (Benkler, Faris & Roberts, 2018).
4.2. A “Aura” Reconfigurada: Autenticidade e Sinteticidade na Era da IA
Walter Benjamin argumentou que a reprodutibilidade técnica da obra de arte levava à perda da sua “aura”, da sua unicidade e de sua autenticidade. No entanto, a propaganda nazi, por meio de Riefenstahl, tentou recriar uma “aura” artificial em torno de Hitler e do regime, utilizando o cinema para mitificar a sua imagem e os seus eventos. A grandiosidade e a perfeição técnica dos seus filmes visavam conferir uma autoridade quase divina à ideologia nazista, mesmo que essa autoridade fosse construída e não inerente (Benjamin, 1968).
Na era da IA generativa, a questão da “aura” assume uma nova dimensão, que pode ser conceptualizada como “aura algorítmica”. Tal como o “corpo sem aura” de Riefenstahl em Olympia representava uma perfeição fabricada e desumanizada, os deepfakes e outros conteúdos sintéticos podem imitar a realidade com uma fidelidade impressionante, criando uma “pseudo-aura” de autenticidade. Uma imagem ou vídeo gerado por IA pode parecer tão real que a sua origem artificial é quase impossível de detetar a olho nu. No entanto, esta “aura” é inerentemente frágil, pois não deriva de uma história ou de uma presença única, mas sim de um algoritmo e dos dados com os quais foi treinada. A “aura algorítmica” é, portanto, uma simulação da autenticidade, uma mímese da singularidade que, paradoxalmente, é produzida em massa e desprovida de um “aqui e agora” original (Park, 2025; Chesney & Citron, 2019).
O desafio reside na proliferação de conteúdos sintéticos que, embora careçam de uma “aura” genuína no sentido benjaminiano, são capazes de enganar e persuadir com eficácia. A capacidade de criar narrativas visuais e auditivas convincentes, sem qualquer ligação à realidade factual, corrói a confiança na própria imagem e no som como prova. Isto leva a uma situação paradoxal em que tudo pode ser questionado e a verdade torna-se uma questão de crença, e não de evidência. A “aura” da verdade é substituída pela ubiquidade da sinteticidade, tornando a verificação uma tarefa hercúlea e a distinção entre o real e o fabricado cada vez mais obscura (O’Connor & Weatherall, 2019; Rini, 2017).
4.3. A Estetização da Desinformação: Deepfakes e a Erotização do Falso
Susan Sontag, ao analisar o “fascínio do fascismo”, destacou como a estética nazista erotizava a violência, a disciplina e a submissão. A beleza formal dos filmes de Riefenstahl servia para tornar aceitáveis e até desejáveis ideais moralmente repugnantes. A forma superava o conteúdo, e a emoção estética ofuscava o julgamento ético, criando uma “sensualidade da dominação” que apelava a impulsos irracionais (Sontag, 1974).
Na era dos deepfakes, assistimos a uma nova forma de estetização da desinformação, que pode ser descrita como a “erotização do falso”. Esta erotização não se refere apenas a conteúdos de natureza sexual, mas também à sedução inerente à perfeição técnica e à capacidade de simular a realidade de forma convincente. Os deepfakes não são apenas ferramentas para disseminar mentiras; também são criações esteticamente apelativas, muitas vezes chocantes ou sensacionalistas, que capturam a atenção e provocam reações emocionais intensas. A sua capacidade de gerar imagens e sons que parecem reais, mas são inteiramente fabricados, confere-lhes um poder de persuasão que transcende a mera transmissão de informação, apelando diretamente ao desejo de ver e acreditar no que é visualmente impecável (Chesney & Citron, 2019; Groh et al., 2024).
Paralelos podem ser traçados entre a forma como a propaganda nazista utilizava a estética para normalizar a violência e a forma como os deepfakes podem normalizar o falso. Ao tornar a desinformação visualmente atraente e emocionalmente envolvente, a IA generativa pode reduzir a resistência crítica do público, tornando-o mais suscetível à manipulação. A linha entre a realidade e a ficção torna-se cada vez mais ténue, e a capacidade de discernir a verdade é comprometida pela sedução do conteúdo sintético, transformando a desinformação numa experiência quase visceral e irresistível (O’Connor & Weatherall, 2019; Rini, 2017).
4.4. O Colapso Epistémico como Consequência da Propaganda Híbrida
A combinação das técnicas históricas de estetização da política com as capacidades da IA generativa e da propaganda computacional resulta num cenário de “propaganda híbrida” que ameaça um “colapso epistémico”. O colapso epistémico refere-se à perda da capacidade de uma sociedade de estabelecer uma base comum de factos e de verdade, o que leva à fragmentação da realidade e à polarização social extrema (O’Connor & Weatherall, 2019; Rini, 2017).
Se a propaganda nazi operava num ambiente mediático mais controlado, em que a “Grande Mentira” podia ser imposta de forma centralizada, a propaganda híbrida na era digital é descentralizada e multifacetada. A IA generativa permite a criação de inúmeras “mentiras virais” que se espalham organicamente pelas redes sociais, cada uma adaptada a nichos específicos de audiência. Esta proliferação de narrativas falsas, juntamente com a dificuldade de verificar a autenticidade dos conteúdos, cria um ambiente de desorientação em que a confiança nas instituições, nos meios de comunicação e até na própria ciência é erodida (Autor, 2026).
O resultado é uma sociedade em que a verdade é subjetiva e a capacidade de discernimento crítico é sobrecarregada pela avalanche de desinformação. A estetização da política, que Benjamin e Sontag identificaram no fascismo, é agora amplificada pela IA, transformando a política num espetáculo contínuo de narrativas fabricadas, em que a emoção e a identidade tribal prevalecem sobre a razão e o debate informado (Benjamin, 1968; Sontag, 1974; Nichols, 2024).
Tabela 1. Comparação entre a Propaganda Nazi (Riefenstahl) e a Propaganda de IA Contemporânea
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Característica |
Propaganda Nazi (Riefenstahl) |
Propaganda de IA (Contemporânea) |
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Meio Principal |
Cinema e Rádio (Analógico) |
Redes Sociais e IA (Digital) |
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Público-alvo |
Massa Homogénea |
Indivíduos (Micro-segmentação) |
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Mecanismo |
“Grande Mentira” (Repetição) |
“Mentira Viral” (Fragmentação) |
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Estética |
Grandiosidade, Escultura, Mito |
Realismo Sintético, Deepfakes, Viralidade |
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Efeito na Verdade |
Substituição da Verdade |
Dissolução da Verdade (Colapso Epistémico) |
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Escala de Produção |
Artesanal + Distribuição Massiva |
Sintética + Distribuição Hiper-segmentada |
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Agência do Recetor |
Passiva (Espectador) |
Simulada (“Participação” Algorítmica) |
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Modo de legitimação |
Espectáculo grandioso (sublime político) |
Autenticidade simulada (aura algorítmica) |
Fonte: elaboração do autor.
5. Discussão
A análise apresentada demonstra que a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta neutra, mas sim um catalisador da reconfiguração da propaganda e da estetização da política. As continuidades entre a propaganda nazi de Leni Riefenstahl e a propaganda computacional com IA generativa são notáveis, particularmente na forma como a estética é mobilizada para manipular emoções e moldar perceções. No entanto, as descontinuidades são igualmente significativas, com a IA a introduzir uma personalização algorítmica e a capacidade de fabricar realidades sintéticas que transcendem as limitações tecnológicas do século XX (Castells, 2009; Couldry & Hepp, 2017).
A contribuição original deste estudo reside em aprofundar a compreensão das continuidades e descontinuidades entre a propaganda do século XX e a do século XXI, com foco particular na estetização da política e na emergência de uma crise epistémica. Ao ligar os conceitos de Benjamin e Sontag à realidade da IA generativa, este artigo oferece um quadro teórico que permite analisar a evolução da manipulação de massas num contexto mediático em constante transformação. Os conceitos de “corpo sem aura” e “aura algorítmica” constituem contribuições originais que estendem o quadro benjaminiano ao domínio da IA (Habermas, 1989; Thompson, 1995).
As implicações teóricas são vastas. É imperativo desenvolver novos quadros conceptuais capazes de dar conta da complexa interação entre tecnologia, estética e política na era digital. A distinção entre realidade e representação, central para a teoria da comunicação, torna-se cada vez mais fluida, exigindo uma reavaliação das nossas ferramentas analíticas. A própria noção de “autenticidade” precisa ser redefinida num mundo em que o sintético pode ser indistinguível do real (Baudrillard, 1983; Virilio, 2000).
As implicações práticas e políticas são igualmente urgentes. A proliferação de deepfakes e de propaganda computacional representa um desafio existencial para a literacia mediática, a regulação da IA e a proteção das democracias. É crucial investir em educação para o discernimento crítico, desenvolver tecnologias de deteção de conteúdos sintéticos e implementar políticas que responsabilizem os criadores e disseminadores de desinformação (Wardle & Derakhshan, 2017; Tufekci, 2017).
Este estudo, predominantemente teórico, apresenta limitações reconhecidas. A análise de casos empíricos específicos de deepfakes na política ou de campanhas de propaganda computacional seria um complemento valioso. Futuras investigações poderiam explorar o papel da IA na radicalização online, o impacto da desinformação gerada por IA nas eleições democráticas ou o desenvolvimento de contramedidas eficazes para combater a “Mentira Viral”. O conceito de “economia da atenção” como motor da estetização algorítmica merece igualmente investigação aprofundada (Zittrain, 2008; Morozov, 2011).
6. Conclusão
Em suma, a inteligência artificial generativa emerge como uma ferramenta poderosa na estetização da política, amplificando as capacidades de manipulação de massas outrora exemplificadas por Leni Riefenstahl na propaganda nazista. Se Riefenstahl coreografava as massas para criar uma ilusão de unidade e poder, a IA personaliza a propaganda, adaptando-a a cada indivíduo e criando bolhas de filtro que reforçam preconceitos. A “aura” da verdade, já fragilizada pela reprodutibilidade técnica, é agora corroída pela ubiquidade de conteúdos sintéticos e deepfakes, que tornam o falso indistinguível do real (Arendt, 1967; Postman, 1985).
A contribuição deste artigo reside em traçar uma ponte conceptual entre as análises de Walter Benjamin e Susan Sontag sobre a estetização da política e o “fascínio do fascismo” e os desafios impostos pela IA generativa. Os conceitos originais de “corpo sem aura” e “aura algorítmica” permitem uma análise mais precisa das continuidades e rupturas entre a propaganda do século XX e a contemporânea. Demonstrou-se que a IA não apenas replica, mas também transforma as táticas de propaganda, culminando num cenário de “colapso epistémico” em que a capacidade de discernir a verdade é severamente comprometida (Adorno & Horkheimer, 2002; Marcuse, 1964).
A implicação de longo prazo é a necessidade urgente de desenvolver resiliência social e crítica diante da propaganda algorítmica. A proteção da democracia e da esfera pública exige um esforço concertado para promover a literacia mediática, investir em investigação voltada à deteção de conteúdos sintéticos e implementar quadros regulatórios que garantam a transparência e a responsabilidade no uso da IA. A luta contra a estetização da política e a manipulação de massas é uma batalha contínua que, na era digital, adquire novas e complexas dimensões. O que resta em aberto – e que constitui o campo de investigação que este artigo procura abrir – é saber se as mesmas ferramentas que tornam possível a “aura algorítmica” e a “mentira viral” podem ser apropriadas para construir formas de literacia, resistência e contranarrativa à altura do desafio. A tecnologia não determina o resultado: determina o terreno da disputa. E é nesse terreno, simultaneamente estético, epistémico e político, que se decide o futuro da esfera pública democrática (Benkler, Faris & Roberts, 2018; Zuboff, 2019).
7. Referências
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Este artigo faz parte de uma série sobre a propaganda nazi e as suas implicações contemporâneas, desenvolvida no âmbito do meu projeto final de pós-graduação em Comunicação e Inteligência Artificial na Universidade Católica Portuguesa.








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