Introdução
O humor e a sátira têm sido, desde tempos imemoriais, ferramentas afiadas na comunicação política. Das peças de teatro gregas às caricaturas jornalísticas do século XIX, a capacidade de rir – e de fazer rir – tem sido um mecanismo poderoso para criticar o poder, expor hipocrisias e mobilizar opiniões. Mas o que acontece quando esta antiga arte encontra a velocidade vertiginosa da era digital? Como se transforma a paisagem da persuasão quando o palco se torna um ecrã e as piadas se convertem em memes virais? Estamos a testemunhar uma revolução na forma como as ideias são disseminadas e as crenças são moldadas, onde o riso pode ser tanto um veículo para a verdade quanto uma arma para a desinformação. Este artigo explora a ascensão dos memes como uma nova linguagem de persuasão digital, analisando o seu impacto na política, nos movimentos sociais e na propagação de propaganda, bem como as implicações psicológicas e as estratégias de defesa necessárias para navegar neste cenário complexo. Os memes políticos e o humor online tornaram-se elementos incontornáveis da nossa realidade digital, exigindo uma reflexão crítica sobre o que consumimos e partilhamos.
O Poder dos Memes na Era Digital

Na paisagem digital contemporânea, os memes emergiram como uma força cultural e política inegável. Mas o que os torna tão poderosos? Pense neles como micro-narrativas virais, cápsulas de informação e emoção que se propagam a uma velocidade estonteante. São fáceis de partilhar, muitas vezes divertidos e, crucialmente, difíceis de contrariar [12]. A sua simplicidade e a capacidade de comunicar ideias complexas de forma instantânea fazem com que sejam ferramentas extremamente eficazes na disseminação de ideias e crenças [8].
Os memes funcionam como um “cavalo de Troia” digital. Ao disfarçar mensagens, por vezes controversas ou enganosas, sob a capa do humor, conseguem infiltrar-se em conversas e comunidades online com pouca resistência. A sua natureza replicável e adaptável permite que sejam rapidamente modificados e contextualizados para diferentes públicos, tornando-os ainda mais virais [2]. Uma imagem, uma frase ou um vídeo curto podem encapsular uma ideia, uma crítica ou um sentimento que ressoa com milhões de pessoas, transcendendo barreiras linguísticas e culturais. São a nova linguagem da persuasão digital.
Esta eficácia reside na sua capacidade de gerar identificação e coesão social. Quando um meme é partilhado e compreendido, cria-se um elo entre o emissor e o recetor, um reconhecimento mútuo de uma perspetiva ou de um sentimento. É um piscar de olhos digital que diz: “Eu entendo-te, tu entendes-me”. Esta ligação emocional é um terreno fértil para a persuasão, pois as pessoas tendem a ser mais recetivas a mensagens que vêm de fontes com as quais se identificam ou que reforçam as suas próprias crenças. É aqui que reside o perigo e a oportunidade dos memes políticos.
Além disso, a ambiguidade inerente a muitos memes permite que diferentes públicos interpretem a mesma mensagem de maneiras distintas. O que para uns é uma piada inofensiva, para outros pode ser uma mensagem codificada com um significado mais profundo e, por vezes, malicioso. Esta característica torna a sua moderação e refutação um desafio hercúleo. Como se combate algo que pode ser “apenas uma piada”? Esta é a essência da sua resiliência e do seu poder de manipulação digital.
Técnicas de Persuasão Através do Humor
O humor, em todas as suas formas – desde a piada mais simples à ironia mais mordaz e à ridicularização mais explícita – tem sido um instrumento de persuasão com um poder singular, especialmente quando aplicado à propaganda digital. Em contextos políticos e sociais, o riso pode ser uma ponte para a mente do recetor, contornando defesas e abrindo caminho para a aceitação de mensagens que, de outra forma, seriam recebidas com ceticismo. Mas como é que estas técnicas funcionam na prática?
Piadas e Anedotas: A Porta de Entrada para a Aceitação
As piadas e anedotas são, talvez, a forma mais acessível de humor. A sua simplicidade e a capacidade de evocar uma resposta emocional imediata – o riso – tornam-nas extremamente eficazes. Em campanhas eleitorais, por exemplo, o uso de histórias curtas e engraçadas, ou a apropriação de frases famosas e provérbios, serve para criar uma ligação emocional com o público [14]. Ao fazer rir, o emissor estabelece uma relação de simpatia e familiaridade, tornando-se mais agradável e, consequentemente, mais persuasivo. A mensagem, embalada no humor, torna-se mais memorável e é percebida como menos ameaçadora, facilitando a sua aceitação e disseminação. É uma estratégia para gerir o afeto e conquistar o voto dos eleitores, procurando persuadi-los e mobilizá-los [14].
Ironia e Sarcasmo: A Crítica Velada e o Desarmamento do Oponente
A ironia e o sarcasmo representam formas mais sofisticadas de humor, onde o significado literal das palavras é subvertido para transmitir uma mensagem implícita, muitas vezes crítica. Estas figuras de estilo são poderosas na propaganda digital porque permitem criticar adversários políticos ou situações de forma indireta, mas incisiva [14]. A ironia, ao dizer o contrário do que se pensa, pode suavizar a crítica, tornando-a mais palatável e, por vezes, mais difícil de refutar diretamente, pois o alvo pode hesitar em ser visto como alguém que “não entende a piada”. O sarcasmo, uma forma mais mordaz de ironia, é frequentemente usado para ridicularizar e descredibilizar oponentes, minando a sua autoridade e seriedade. Ambos podem ser particularmente eficazes em memes, onde a combinação de imagem e texto amplifica a mensagem subjacente, tornando a crítica mais impactante e viral.
Ridicularização: A Descredibilização do Alvo
A ridicularização é uma técnica de humor que visa diminuir a credibilidade e a autoridade de um indivíduo, grupo ou ideia, apresentando-o de forma caricatural ou absurda. Em contextos de memes políticos, a ridicularização é uma arma potente. Ao transformar um oponente em objeto de escárnio, o humorista ou propagandista pode levar o público a vê-lo como menos sério, menos competente ou até mesmo ridículo. Esta descredibilização pode ser devastadora para a imagem pública do alvo, pois o riso coletivo em torno de uma figura pode erodir a sua legitimidade e influência. O relatório da NCTV sobre o uso de memes pela extrema-direita [8] destaca como a ridicularização é usada para normalizar ideias radicais e desumanizar adversários, tornando-os alvos fáceis de desprezo e ódio. A ridicularização, portanto, não é apenas uma forma de humor; é uma tática de desvalorização que pode ter consequências profundas na perceção pública e na polarização social.

Estudos de Caso Recentes: Memes em Ação
A teoria ganha vida quando observamos a aplicação prática dos memes em cenários reais de campanhas políticas, movimentos sociais e, infelizmente, na disseminação de desinformação. Estes exemplos ilustram a versatilidade e o impacto profundo dos memes como ferramentas de persuasão digital.
Memes em Campanhas Políticas: O Caso de Ciro Gomes nas Eleições Brasileiras de 2018
As eleições presidenciais brasileiras de 2018 foram um terreno fértil para a proliferação de memes políticos. Um estudo aprofundado [2] analisou como o humor foi estrategicamente utilizado na campanha de Ciro Gomes, um dos candidatos. A pesquisa revelou que a capacidade de replicação dos memes foi crucial para a propagação das mensagens do candidato no Twitter. O humor, neste contexto, atuou como um “suavizador” do discurso político, tornando as mensagens mais palatáveis e facilitando a sua circulação, mesmo num ambiente altamente polarizado. Ao embalar ideias políticas em formatos humorísticos, a campanha conseguiu transpor as barreiras das “câmaras de eco” – espaços digitais onde os indivíduos tendem a interagir apenas com quem partilha das suas opiniões – alcançando um público mais vasto. No entanto, esta mesma capacidade de suavizar o discurso também levanta preocupações: o humor pode mascarar informações falsas ou enganosas, tornando-as mais facilmente aceites e difíceis de contestar, um desafio significativo na luta contra a desinformação.
Memes como Arma Online: A Estratégia da Extrema-Direita
Um relatório da NCTV (National Coordinator for Security and Counterterrorism) dos Países Baixos, intitulado “Memes as an online weapon” [8], oferece uma análise contundente sobre como a extrema-direita utiliza memes para disseminar mensagens e ideologias. Este estudo destaca que os memes são uma forma subtil e eficaz de alcançar, em particular, os jovens, e de espalhar mensagens radicais, muitas vezes disfarçadas de humor. A sua eficácia reside em vários fatores:
•Acessibilidade e Viralidade: Memes são facilmente copiados, adaptados e distribuídos online, tornando-se virais e alcançando um grande número de pessoas em pouco tempo.
•Mensagens Múltiplas e “Dog Whistles”: Podem conter mensagens diferentes para diferentes recetores. Uma mensagem pode parecer inofensiva ou socialmente aceitável para o público em geral, enquanto uma mensagem codificada e menos aceitável socialmente é entendida por um grupo mais pequeno – um fenómeno conhecido como “dog whistle”. Por exemplo, o sinal “OK” (com o polegar e o indicador a formar um círculo e os outros dedos estendidos) é usado por alguns grupos de extrema-direita como um “dog whistle” para “White Power”.
•Anonimato e Dificuldade de Rastreamento: A origem de um meme é frequentemente difícil de rastrear, e a sua natureza ambígua e humorística torna-os quase impossíveis de combater através da lei ou da moderação de conteúdo online. A defesa de que é “apenas uma piada” é uma tática comum para evitar a responsabilização.
•Normalização e Formação de Identidade: Contribuem para a normalização e aceitação social de ideias de extrema-direita, bem como para a formação de grupos e identidades online, solidificando a lealdade interna e demonizando a oposição.
O relatório apresenta exemplos perturbadores:
•Accelerationismo: Memes que glorificam perpetradores de ataques terroristas de extrema-direita (como os de Noruega em 2011, Christchurch em 2019, Buffalo em 2022 e Bratislava em 2022) e que promovem a violência e a preparação para uma “guerra racial”. Utilizam frequentemente cores como preto, branco e vermelho, e símbolos como suásticas invertidas e caveiras. O humor, neste contexto, é menos presente ou mais mórbido.
•Alt-right: Memes que promovem o tradicionalismo, a pureza e a masculinidade, muitas vezes com mensagens veladas. Focam-se em temas como a rejeição de drogas e álcool, o incentivo ao exercício físico para preparar os “rapazes brancos” para uma guerra racial, e a exaltação de culturas nórdicas antigas. Figuras como “Pepe the Frog” (que se tornou um símbolo da alt-right) e “Clownworld” (a crença de que o mundo enlouqueceu devido a ideias “politicamente corretas”) são exemplos proeminentes.
Estes casos demonstram como os memes são utilizados não apenas para influenciar, mas para minar a ordem legal democrática e a segurança nacional, tornando-se uma “arma de comunicação online” que normaliza ideias radicais e promove a manipulação digital.
Memes em Movimentos Sociais: A “Meme-ing of Democracy” em 2020
Em contraste com o uso malicioso, os memes também são ferramentas poderosas para movimentos sociais que procuram justiça e mudança. O ano de 2020, marcado por eventos políticos e sociais significativos, viu a emergência de memes que refletiam e impulsionavam esses movimentos. O artigo “Top Memes 2020: The Meme-ing of Democracy!” [13] destaca vários exemplos:
•”I’m Speaking” (Kamala Harris): Este meme, surgido da insistência de Kamala Harris em falar durante um debate vice-presidencial, tornou-se um símbolo de dignidade e resistência face à misoginia, ressoando com a necessidade de reaver tempo, cura e agência num mundo que muitas vezes tenta silenciar vozes. Representa a lógica de ação e a afirmação de direitos.
•”Teachers vs. Billionaires”: Este meme estabeleceu um contraste entre os educadores (construtores do futuro) e os bilionários (parasitas sociais que subfinanciam serviços públicos). Foi usado em campanhas eleitorais e na luta por políticas de saúde pública, destacando a importância dos serviços públicos e a crítica à acumulação de riqueza. Demonstra o uso do “triângulo dramático” para enquadrar conflitos sociais.
•Cori Bush: A história de Cori Bush, desde a sua campanha eleitoral de base até à sua entrada nos corredores do poder, tornou-se um “meme humano” de esperança. Ela encarna o valor da representação cidadã, da liderança vinda das margens e da responsabilidade para com a comunidade. Este exemplo mostra como figuras públicas podem tornar-se memes que inspiram e mobilizam.
•”Free the Vote!”: Slogans como #FreeTheVote, #LetMyPeopleVote e #RestoreTheVote foram usados para defender o acesso ao voto, especialmente após a expansão do direito de voto a pessoas com condenações criminais. Estes memes reforçam a ideia de que os direitos de voto são direitos humanos e que a autodeterminação exige a inclusão de todos na sociedade.
Estes exemplos demonstram a diversidade de formas como os memes são empregados em movimentos sociais, desde a afirmação de direitos e a crítica social até à mobilização e inspiração de figuras públicas, sublinhando o seu papel como uma ferramenta de comunicação de duas gumes.
Implicações Psicológicas: O Riso como Ferramenta de Manipulação
O humor, embora frequentemente associado a momentos de descontração e alegria, possui profundas implicações psicológicas quando inserido no contexto da propaganda digital e da desinformação. A sua capacidade de gerar impacto emocional e de criar uma ligação com o público pode ser explorada para manipular perceções e reforçar ideologias, muitas vezes contornando o pensamento crítico. Como é que uma simples gargalhada pode ser tão poderosa?
O Riso Reduz o Pensamento Crítico: Estamos Menos Atentos Quando Rimos?
Uma das implicações mais insidiosas do humor na persuasão é a sua capacidade de reduzir o pensamento crítico. Quando uma mensagem é apresentada de forma engraçada, a nossa guarda cognitiva tende a baixar. Estamos mais relaxados, mais recetivos e, consequentemente, menos propensos a questionar a veracidade ou as intenções subjacentes à mensagem. O humor atua como um “amortecedor” cognitivo, desviando a atenção dos argumentos racionais ou das inconsistências. Pense nisto: é mais fácil aceitar uma crítica mordaz ou uma ideia controversa se ela vier embrulhada numa piada. O humor pode, assim, “suavizar” o discurso político, permitindo que mensagens que, de outra forma, seriam recebidas com ceticismo ou resistência, circulem com maior facilidade [14]. A risada pode ser um convite para a aceitação acrítica, um portal para a manipulação digital.
Criação de Identificação e Coesão Social: O Poder do “Nós” Que Ri Junto
O humor é uma ferramenta extraordinariamente eficaz para criar identificação e coesão dentro de um grupo. Partilhar uma piada ou um meme engraçado sobre um tópico específico gera um sentimento de pertença e solidariedade entre os indivíduos que compreendem e apreciam o humor. Em contextos políticos, esta dinâmica é explorada para fortalecer a lealdade a um candidato, partido ou movimento. Ao rir das mesmas coisas, as pessoas sentem-se parte de uma comunidade, uma “bolha” onde as suas crenças são validadas e reforçadas. O riso partilhado não só reforça a identidade do grupo, mas também a perceção de que os membros partilham os mesmos valores e visões de mundo. Esta ligação emocional profunda torna o grupo mais resistente a influências externas e mais propenso a aceitar as narrativas internas, mesmo que estas sejam simplificadas ou distorcidas [14].
Reforço da Polarização: O Riso que Divide
Embora o humor possa unir, ele também pode ser um catalisador para a polarização. Memes e piadas que ridicularizam o “outro” – sejam eles oponentes políticos, grupos sociais diferentes ou minorias – podem reforçar estereótipos negativos e desumanizar os adversários. Ao criar um claro “nós” contra “eles”, o humor pode aprofundar as divisões existentes e intensificar sentimentos de raiva, desprezo e até ódio em relação a grupos externos. A IA e as ferramentas de geração de conteúdo têm amplificado este fenómeno, permitindo a criação e disseminação rápida de vídeos e memes que reforçam a polarização afetiva, divulgando narrativas negativas sobre adversários e consolidando “bolhas identitárias rígidas” onde o diferente é visto como uma ameaça [16]. Neste cenário, o humor deixa de ser uma forma de entretenimento para se tornar uma arma estratégica, solidificando a lealdade interna e demonizando a oposição, dificultando o diálogo e o entendimento mútuo. O riso, neste contexto, pode ser um sinal de alarme para a erosão da empatia e da compreensão social.
IA e Criação de Memes: A Aceleração da Propaganda Digital
A ascensão da Inteligência Artificial (IA) generativa está a revolucionar a forma como os memes são criados e disseminados, adicionando uma nova camada de complexidade e poder à propaganda digital. Ferramentas de IA, capazes de gerar imagens, textos e até vídeos com base em prompts, estão a acelerar a produção e a personalização de memes propagandísticos a uma escala sem precedentes. Mas qual é o verdadeiro impacto desta tecnologia?
Produção em Massa e Personalização Hiper-Segmentada
Tradicionalmente, a criação de memes dependia da criatividade humana e da capacidade de identificar e adaptar tendências. Com a IA, este processo é automatizado e escalado. Geradores de memes baseados em IA podem produzir centenas ou milhares de variações de um meme em questão de segundos, permitindo que os propagandistas testem rapidamente quais formatos e mensagens ressoam mais com diferentes públicos. Além disso, a IA permite uma personalização hiper-segmentada. Ao analisar dados demográficos e psicográficos dos utilizadores, os algoritmos podem adaptar memes para maximizar o seu impacto em grupos específicos, tornando a mensagem mais relevante e persuasiva para cada indivíduo [16]. Esta capacidade de criar conteúdo “feito à medida” para cada “bolha” de utilizadores amplifica o potencial de persuasão e de reforço de preconceitos existentes.
Análise de Tendências e Otimização da Viralidade
Para além da criação, a IA também é utilizada para analisar tendências, identificar padrões de humor e prever quais memes se tornarão virais. Isso permite que os criadores de conteúdo, incluindo aqueles com intenções propagandísticas, otimizem as suas criações para máxima eficácia. Ao compreender o que “funciona” e porquê, a IA pode guiar a produção de memes que têm maior probabilidade de se espalhar rapidamente e de influenciar a opinião pública. A automação e a escala que a IA oferece representam um desafio significativo para a deteção e combate à desinformação baseada em memes, pois a velocidade de disseminação supera a capacidade de verificação humana [16].
O Futuro da Desinformação: Memes “Deepfake” e Narrativas Sintéticas
O futuro da criação de memes com IA aponta para cenários ainda mais complexos. A capacidade de gerar “deepfakes” – vídeos ou imagens manipuladas de forma realista – combinada com a natureza viral dos memes, pode levar à proliferação de narrativas sintéticas e altamente enganosas. Um relatório do Turing Institute [18] examina como a IA generativa pode aprimorar memes extremistas e torná-los uma tática mais potente para a radicalização. A linha entre o humor inofensivo e a propaganda maliciosa torna-se cada vez mais ténue, exigindo uma vigilância constante e o desenvolvimento de novas estratégias de defesa contra a desinformação impulsionada pela IA.
Defesa e Resiliência: Navegando no Cenário da Persuasão Digital
Num cenário digital onde o humor e os memes se tornaram veículos potentes para a propaganda digital e a desinformação, desenvolver estratégias de defesa e resiliência é crucial. Como podemos reconhecer e resistir à manipulação digital que se esconde por trás de uma piada ou de uma imagem engraçada? A chave reside numa abordagem multifacetada que combina o desenvolvimento do pensamento crítico, a verificação de factos e a literacia digital.
Desenvolver o Pensamento Crítico: Questionar o Riso
O primeiro passo para a defesa é o desenvolvimento de um pensamento crítico robusto. Isso significa ir além da reação imediata ao humor e questionar a sua origem, o seu propósito e o seu impacto. Pergunte a si mesmo:
•Quem criou este meme ou piada? Qual é a sua agenda ou perspetiva?
•Qual é a mensagem subjacente? Há algo mais do que apenas humor?
•Este humor visa ridicularizar ou desumanizar alguém? Se sim, porquê?
•O meme simplifica excessivamente uma questão complexa? Estará a omitir informações importantes?
•Como me sinto ao ver este meme? O riso está a mascarar um sentimento de raiva, desprezo ou aceitação acrítica?
Ao questionar ativamente estas dimensões, podemos começar a desvendar as camadas de persuasão e a identificar quando o humor está a ser usado como uma ferramenta de manipulação, em vez de uma forma genuína de entretenimento ou crítica construtiva.
Verificação de Factos (Fact-Checking) e Contextualização
Embora os memes sejam, por natureza, concisos e muitas vezes descontextualizados, a verificação de factos continua a ser uma ferramenta essencial. Se um meme apresenta uma “verdade” humorística sobre um evento ou figura, procure fontes fidedignas para verificar a informação. A contextualização é igualmente importante: um meme pode ser engraçado num determinado contexto, mas tornar-se ofensivo ou enganoso noutro. Compreender o histórico e a evolução de um meme pode revelar as suas intenções originais e como foi cooptado para fins propagandísticos. Ferramentas de pesquisa reversa de imagem e plataformas de verificação de factos podem ser aliadas valiosas nesta tarefa.
Literacia Digital e Educação para os Media
A longo prazo, a literacia digital e a educação para os media são as defesas mais poderosas contra a desinformação e a manipulação digital. Ensinar as pessoas a navegar no cenário de informação online, a identificar diferentes tipos de conteúdo (notícias, opinião, propaganda, sátira), a reconhecer vieses e a compreender os algoritmos que moldam as suas experiências online é fundamental. Isso inclui a compreensão de como os memes funcionam, como são criados e como podem ser usados para influenciar. Promover a diversidade de fontes de informação e encorajar o diálogo construtivo entre diferentes perspetivas também pode ajudar a mitigar os efeitos polarizadores dos memes propagandísticos. A educação é a nossa melhor arma para garantir que o riso não se torne um cúmplice involuntário da propaganda.
Conclusão: Rir, Refletir e Resistir
Os memes, o humor e a propaganda digital formam uma tapeçaria complexa na paisagem da comunicação contemporânea. O que começou como uma forma de entretenimento e expressão cultural evoluiu para uma linguagem poderosa de persuasão, capaz de moldar opiniões, mobilizar movimentos e, infelizmente, disseminar desinformação. Vimos como o humor, com a sua capacidade de suavizar discursos e criar identificação, pode ser uma ferramenta eficaz para a propaganda, reduzindo o pensamento crítico e reforçando a polarização. A ascensão da IA generativa apenas amplifica este cenário, permitindo a produção em massa e a personalização de memes propagandísticos, tornando a linha entre a sátira e a manipulação cada vez mais ténue.
No entanto, o poder dos memes não é intrinsecamente maligno. Eles podem ser, e são, utilizados para o bem: para mobilizar movimentos sociais, para criticar injustiças e para promover a democracia. A dualidade do seu impacto exige de nós uma vigilância constante e um compromisso com a literacia digital. Não podemos ignorar o riso que nos rodeia, mas devemos aprender a questioná-lo. Quem está a rir? De quê? E porquê? Ao desenvolver o pensamento crítico, ao verificar os factos e ao promover uma educação mediática robusta, podemos equipar-nos para navegar neste cenário complexo.
Em última análise, a responsabilidade recai sobre cada um de nós. Consumir e partilhar memes e humor online exige uma reflexão crítica. O riso pode ser libertador, mas também pode ser uma corrente. Que a nossa capacidade de rir seja acompanhada pela nossa capacidade de pensar, de questionar e de resistir à manipulação digital. Só assim poderemos garantir que a nova linguagem da persuasão digital sirva a verdade e a democracia, e não a propaganda digital e a desinformação.
Referências
[2] Soares, F. B. (2023). Memes políticos, humor e eleições: O uso de memes como estratégia de propagação no Twitter. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, 23(2). https://doi.org/10.1590/1984-6398202317859
[8] National Coordinator for Security and Counterterrorism (NCTV). (2024, August 1). Far right memes: Undermining and far from recognizable. https://english.nctv.nl/documents/publications/2024/08/01/far-right-memes-undermining-and-far-from-recognizable
[12] Williams, A., & Dupuis, M. (2020). I don’t always spread disinformation on the web, but when I do I like to use memes: An examination of memes in the spread of disinformation. https://faculty.washington.edu/marcjd/articles/I_Don%27t_Always_Spread_Disinformation.pdf
[13] Center for Story-based Strategy. (2020, December 21). Top memes 2020: The meme-ing of democracy!. https://www.storybasedstrategy.org/blog-full/2020/12/21/top-memes-2020-the-meme-ing-of-democracy
[14] Valdez Zepeda, A. (2014). O humor na estratégia de persuasão durante as campanhas eleitorais. Revista Brasileira de Ciência Política, (13), 243–268. https://doi.org/10.1590/S0103-33522014000100010
[16] Jota.info. (2025, September 5). Como vídeos gerados por IA alimentam a polarização afetiva. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/gestao-politica-sociedade/como-videos-gerados-por-ia-alimentam-a-polarizacao-afetiva
[18] Turing Institute. (2024). Propaganda by meme. https://cetas.turing.ac.uk/publications/propaganda-meme
Sugestões de Vídeo
•”Memes, Manipulation & Misinformation in the Digital Age” (YouTube, 2025). Este vídeo discute como a propaganda evoluiu para incluir reels, gráficos chamativos, memes e tweets, destacando a sua influência na era digital. [URL: https://www.youtube.com/watch?v=Xxnij-L5lb4]
•”Digital Defenders: Memes vs. Fascism—Disrupt the Feed!” (YouTube, 2025). Aborda como os memes se movem mais rápido que os factos e são usados como armas por maus atores para espalhar desinformação, moldar a cultura e promover agendas autoritárias. [URL: https://www.youtube.com/watch?v=Q02cdnsMiek]
•”Os desafios da desinformação e as tecnologias para combatê-la” (YouTube, 2022). Palestra que discute os desafios da desinformação e as tecnologias para combatê-la, com especialistas mundiais. [URL: https://www.youtube.com/watch?v=yCWyY4lkv_A]
Sugestões de Leitura
Sinan Aral – The Hype Machine
Um estudo sobre como as redes sociais moldam eleições, economia e saúde pública, e como podemos responder ao seu poder.
Limor Shifman – Memes in Digital Culture
Referência essencial para compreender a origem, evolução e impacto cultural dos memes.
Edward Bernays – Propaganda
O clássico que revela como a psicologia coletiva pode ser manipulada em massa – escrito em 1928, mas assustadoramente atual.
Chagas et al. – “Political Memes and the Politics of Laughter” (2019)
Estudo académico que analisa o humor político no Brasil e mostra como o riso se tornou estratégia de comunicação digital.
Daniel Kahneman – Thinking, Fast and Slow
Uma viagem pela mente humana: como pensamos, decidimos e, muitas vezes, somos enganados por atalhos cognitivos.
Meta descrição: Como memes políticos e humor online se tornaram armas de propaganda e desinformação, influenciando opinião pública na era digital.
Palavras-chave:
memes políticos, desinformação digital, propaganda online, humor e política, persuasão digital, inteligência artificial, fake news, polarização, comunicação política
Este artigo faz parte de uma série sobre a propaganda nazi e as suas implicações contemporâneas, desenvolvida como parte do meu projeto final de pós-graduação em Comunicação e Inteligência Artificial na Universidade Católica Portuguesa.








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