Colonialismo Cognitivo e o Gestell Epistemológico: A Arquitetura dos LLMs e a Crise da Soberania em 2026

Por Nuno Santos (com apoio de IA na pesquisa e edição)


Do Lebensraum ao Algoritmo: A Nova Batalha Pela Sua Mente
Do Lebensraum ao Algoritmo: A translação histórica do controlo territorial para controlo ontológico através da Inteligência Artificial Soberana. A guerra em 2026 já não é pelo solo — é pela estrutura da realidade que define o que pode ser pensado. © 2026 Nuno Santos | aipropagandanazi.com

1. Introdução: A Crise da Soberania na Era da Infraestrutura Epistemológica

A história da soberania é a história do controlo sobre o território, os recursos e, fundamentalmente, a narrativa. No século XXI, a tecnologia deixou de ser um mero instrumento para se tornar a própria infraestrutura epistemológica que define o que é o conhecimento e como ele é acessado. A corrida pela IA Soberana não é apenas uma competição tecnológica; é a luta pelo controlo desta infraestrutura, onde a hegemonia se manifesta como colonialismo cognitivo.

Este ensaio propõe uma análise filosófica e geoestratégica da arquitetura dos Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) em 2026. Argumenta-se que a IA, enquanto manifestação radical da técnica moderna, impõe uma Ocupação Ontológica: um processo em que a linguagem e o pensamento são progressivamente reduzidos a recursos computáveis, geridos por filtros, incentivos e arquiteturas de otimização.

Recorrendo a Martin Heidegger e Herbert Marcuse, examinamos esta ocupação sob duas lentes complementares:
(1) a dimensão ontológica da técnica como enquadramento (Gestell), e
(2) a dimensão sociopolítica da racionalidade tecnológica como forma de dominação.

É crucial esclarecer que esta análise não pretende estabelecer equivalências morais simplistas entre regimes contemporâneos e totalitarismos do século XX. O objetivo é identificar um padrão técnico-político de ocupação total que, embora opere por meios digitais e não cinéticos, reproduz lógicas de sincronização e centralização da vida pública e privada.

A nuance decisiva é que a IA Soberana, embora possa constituir uma resposta legítima à hegemonia tecnológica externa, carrega em si o risco de uma deriva autoritária interna quando se torna o default institucional da verdade.

O problema não é a inteligência. É o default.
Quando a interface vira infraestrutura e a infraestrutura vira epistemologia, o possível fica sob jurisdição.


2. O Gestell Algorítmico e a Ocupação Ontológica

Martin Heidegger, em A Questão da Técnica [1], define o Gestell (Dispositivo/Enquadramento) como a essência da técnica moderna: um modo de desvelamento que exige que a realidade se revele apenas como Bestand (Reserva Permanente). A técnica não é apenas uma ferramenta — é uma forma de ordenar o mundo.

A arquitetura dos LLMs é, talvez, a manifestação mais avançada desse Gestell aplicada às esferas da linguagem, da cultura e do conhecimento.

2.1. A Linguagem Reduzida a Bestand

A linguagem — que Heidegger descreve como lugar onde o Ser se anuncia [2] — é reduzida a Bestand nos LLMs. Os datasets massivos convertem a expressão humana em “reserva permanente”: corpus, tokens, vetores, embeddings e probabilidades.

Deste modo, o LLM exige que a totalidade do conhecimento e da cultura humana se apresente como recurso computacional pronto para ser processado, indexado e otimizado.

A Ocupação Ontológica ocorre quando a experiência humana deixa de ser vivida como desvelamento e passa a ser consumida como saída otimizada. A realidade já não se apresenta; é servida.

A censura perfeita não apaga respostas. Impede perguntas.

2.2. Colonialismo Cognitivo e Hegemonia Epistemológica

O colonialismo cognitivo descreve a imposição de estruturas de conhecimento e categorias de pensamento de uma potência hegemónica sobre culturas periféricas. Historicamente, manifestou-se pela educação, religião e mídia. Em 2026, manifesta-se pelo domínio sobre modelos, infraestruturas, chips, cloud, APIs e interfaces.

Modelos treinados predominantemente em dados e valores anglo-americanos (ou, noutra matriz, sinocêntrica) exercem hegemonia epistemológica: não precisam censurar explicitamente para enquadrar o real — basta definir o padrão do que é relevante, moral, aceitável e digno de atenção.

Neste contexto, a IA Soberana surge como tentativa de construção de uma infraestrutura local: uma Grande Recusa geoestratégica contra a homogeneização global. Contudo, a defesa contra um Gestell externo pode, paradoxalmente, tornar-se a instalação de um Gestell interno.


3. Marcuse e a Racionalidade Tecnológica: A Soberania como Risco

A crítica de Herbert Marcuse, exposta em O Homem Unidimensional [4], complementa Heidegger ao mostrar como a técnica, na modernidade avançada, produz uma racionalidade totalizante: uma Racionalidade Tecnológica que neutraliza a contradição e absorve a oposição.

3.1. O LLM como Agente da Racionalidade Tecnológica

Os LLMs são o epítome desta racionalidade: otimizam a comunicação, a instrução, a produtividade e a resolução de problemas. Contudo, esta otimização apresenta-se como libertação — quando pode funcionar como dominação.

O LLM reduz o pensamento à dimensão operacional:

  • pergunta → resposta
  • dúvida → estatística
  • contradição → suavização
  • conflito → reformulação

O resultado é um ambiente cognitivo que favorece o consenso do provável e penaliza a fricção do crítico.

Quando a linguagem vira token, o sentido vira taxa.
E quando o sentido vira taxa, a dissidência vira ruído.

Este processo contribui para a produção do Homem Unidimensional no domínio cognitivo: o indivíduo que já não pensa contra o sistema, pois o sistema antecipa o seu vocabulário.

3.2. Evidências Empíricas: A Materialização do Controlo em 2026

A ocupação ontológica não é apenas hipótese filosófica. Ela encontra eco em implementações concretas da IA como instrumento de governança e disciplina epistemológica.

Em 2025, a China implementou regras que exigem que sistemas generativos respeitem diretrizes políticas e mecanismos de controlo ideológico, incluindo a validação antes do lançamento público [5]. Este tipo de arquitetura torna a IA uma peça de sincronização preventiva: não censura depois — modela antes.

Na Rússia, o Estado avançou com estratégias nacionais de integração de IA na administração e na produção de conhecimento institucional, incluindo exigências de reporte e de coordenação governamental [6]. Paralelamente, modelos domésticos são promovidos como infraestrutura estratégica em ecossistemas educativos e científicos.

Mesmo em democracias europeias, a preocupação com a dependência tecnológica intensificou-se: o Parlamento Europeu aprovou, em janeiro de 2026, uma resolução orientada para a“soberania tecnológica”, defendendo medidas de redução de dependências estruturais externas [7]. A discussão sobre contratação pública e infraestruturas críticas revela que, mesmo sem intenção autoritária, a soberania tecnológica pode empurrar Estados para o default doméstico.

A diferença crucial entre regimes autoritários e democracias reside nos checks and balances, na transparência e na cultura institucional. Mas a tecnologia subjacente permanece: o Gestell não tem ideologia — mas multiplica a ideologia de quem o controla.


4. Da Propaganda ao Algoritmo: Memes, Ridículo e Guerra Cognitiva

A propaganda totalitária do século XX compreendeu a importância do ridículo e da desumanização como preparação psicológica para a violência física. Em 2026, esse mecanismo é automatizado por guerra informacional e sistemas generativos.

A Guerra Cognitiva moderna utiliza IA para destruir a capacidade de um grupo partilhar uma realidade comum. A desinformação contemporânea opera menos por persuasão direta e mais por fragmentação epistemémica: o objetivo não é fazer-te acreditar numa mentira — é impedir-te de saber o que é verdade.

O meme é a unidade perfeita desta guerra:

  • baixo custo
  • alta viralidade
  • alta imunidade à refutação racional

O humor corrosivo torna-se arma, não por convencer, mas por desmoralizar e polarizar. “Enxames” digitais coordenados inundam o espaço público com ridículo, ódio e cinismo, corroendo a confiança nas instituições e no próprio significado das palavras.

Tabela comparativa: sincronização total — ontem e hoje

Conceito Nazi (1930s)Evolução IA Soberana (2026)Objetivo Geopolítico
Lebensraum (Espaço Vital)Domínio do Espaço de DadosExpansão de influência e controlo de recursos (dados, hardware, talento).
Volksempfänger (Rádio do Povo)LLM Estatal DefaultGarantir que a população apenas ouve a “voz” do Estado, controlando a fonte primária de conhecimento.
Ministério da PropagandaArquitetura de IA SoberanaAutomatizar a produção de “verdade” em escala industrial e gerir propaganda digital.
Desumanização (Der Stürmer)Memes de IA e DeepfakesQuebrar resistência moral do adversário via ridículo e polarização social.
Gleichschaltung (Sincronização)Filtros AlgorítmicosEliminar dissidência e garantir alinhamento ideológico em plataformas digitais.

5. Roteiro para a Soberania Cognitiva

A soberania cognitiva em 2026 exige uma redefinição da defesa nacional: não apenas a defesa territorial, mas a defesa do quadro de verdade onde o cidadão existe.

A resistência à ocupação ontológica não é puramente técnica. É estrutural, institucional e cultural. Exige:

  • Pluralidade de Modelos e Antitruste: impedir que um único modelo (corporativo ou estatal) se torne default obrigatório em serviços públicos essenciais.
  • Transparência de Datasets e Auditoria: auditoria independente aos dados de treino e processos de RLHF, evitando a captura ideológica da memória algorítmica.
  • Apoio ao Open-Source e Open Weights: fomento de modelos audíveis e reusáveis, permitindo uma “Grande Recusa” marcusiana no nível do código.
  • Literacia Ontológica e Epistemológica: educação para compreender como os algoritmos enquadram a realidade — para que cidadãos reconheçam o Gestell e recuperem pensamento dialético.

A desinformação moderna já não precisa convencer — basta destruir a realidade comum. A única resistência possível é recuperar a autonomia do pensar: uma forma de soberania que não se mede em fronteiras, mas em liberdade interior.


Referências

[1] Heidegger, M. (1977). The Question Concerning Technology. Harper & Row.
[2] Heidegger, M. (1971). Poetry, Language, Thought. Harper & Row.
[3] Mansur, M. A. (2025). AI and Cyber-Enabled Threats to Democracy through Algorithmic Manipulation and Generative AI in Undermining Democratic Integrity. Academia.edu.
[4] Marcuse, H. (1964). One-Dimensional Man. Beacon Press.
[5] Wall Street Journal. (2025, Dec 23). China Is Worried AI Threatens Party Rule—and Is Trying to Tame It.
[6] Kremlin.ru. (2025, Nov 19). AI Journey international conference.
[7] Wall Street Journal. (2026, Jan 21). Europe Prepares for a Nightmare Scenario: The U.S. Blocking Access to Tech.
[8] Sharma, R. (2025). MEME WARFARE IN DIGITAL AGE… Journal of Military History, 6(3).
[9] Eslami, M., et al. (2025). The geopolitics of AI-driven arms races.

Sugestões Multimédia

Para aprofundar a compreensão sobre a nova Guerra Fria da IA e a propaganda digital, sugerimos os seguintes recursos visuais:


Sobre Guerra Algorítmica e Operações Psicológicas


Sobre Filosofia da Técnica (Heidegger e Ellul)

Sugestões de Leitura

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📋 Metadados do Artigo

Tags: IA Soberana, Colonialismo Cognitivo, Gestell, Guerra Cognitiva, Geopolítica, Heidegger, Marcuse, LLM, Ocupação Ontológica, Soberania Digital

Categorias: Filosofia da Tecnologia, Geopolítica, IA e Sociedade
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© 2026 Nuno Santos | Artigo escrito com apoio de IA na pesquisa e edição

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