Introdução
A propaganda sempre desempenhou um papel crucial na definição de ideologias, na mobilização de massas e na consolidação de poderes políticos. Contudo, as técnicas de difusão de ideias e manipulação de narrativas têm vindo a transformar-se radicalmente ao longo das décadas. Desde os regimes totalitários do início do século XX até aos actuais cenários digitais, o que mudou foi sobretudo a forma de chegar aos públicos, tornando o processo mais subtil, mais imediato e, por vezes, mais perigoso. Neste artigo, analisamos a evolução da propaganda política, reflectindo sobre os desafios presentes na era das redes sociais e da inteligência artificial.
A Transição para a Era Digital
O surgimento de tecnologias de comunicação em massa, como a televisão, e mais tarde a popularização da Internet, alteraram significativamente a paisagem mediática. Se antes a propaganda dependia de estruturas de media nacionais e altamente controladas, a chegada da web abriu caminho para uma multiplicidade de vozes e perspectivas. No entanto, com a proliferação das redes sociais, verificou-se uma descentralização da informação que traz vantagens e riscos. Por um lado, qualquer pessoa pode agora produzir e partilhar conteúdos, alcançando um público vasto sem intermediários. Por outro, a circulação de dados não verificados e a possibilidade de manipular algoritmos de recomendação geram novos cenários de desinformação. Nesta esfera digital, a propaganda pode surgir de forma difusa, sem autor identificável, atingindo potenciais milhões de utilizadores em apenas alguns cliques.
Este cenário acarreta profundas mudanças na forma como nos relacionamos com a informação. Enquanto na era pré-digital o controlo do fluxo noticioso era relativamente centralizado — dominado por governos, canais televisivos e grandes grupos de imprensa —, hoje o alcance e a velocidade de propagação dos conteúdos tornam-se praticamente ilimitados. As redes sociais geram uma miríade de espaços virtuais, onde diferentes narrativas competem pela atenção do público, sem que exista, muitas vezes, uma filtragem editorial rigorosa.
A facilidade de publicação imediata não só estimula a participação de cidadãos anónimos na criação de conteúdos, como também favorece a disseminação de informação imprecisa ou distorcida. Se, por um lado, este ambiente pode contribuir para a diversidade de opiniões e para a denúncia de injustiças (como se vê em movimentos sociais e de protesto que se mobilizam online), por outro, abre portas a actores mal-intencionados que se servem da rede para espalhar boatos, notícias falsas e discursos de ódio.
A personalização dos conteúdos, proporcionada pelos algoritmos das plataformas digitais, intensifica ainda mais esta problemática. Ao contrário dos antigos canais de televisão ou da imprensa tradicional, onde a mensagem era essencialmente padronizada, os feeds nas redes sociais adaptam-se ao perfil de cada utilizador. Assim, cada pessoa pode receber versões diferentes dos mesmos acontecimentos, reforçando convicções pré-existentes e criando “bolhas” informativas. Neste contexto, a propaganda torna-se mais segmentada e eficaz, porque se dirige especificamente às emoções e preferências de cada indivíduo.
Este fenómeno, muitas vezes descrito como “câmaras de eco”, aprofunda a polarização política e ideológica, pois os utilizadores tendem a contactar mais com conteúdos que validam as suas crenças, ignorando ou rejeitando visões alternativas. Para além disso, a dimensão viral dos conteúdos leva a que determinadas narrativas — mesmo que enganosas — alcancem rapidamente um público de milhões. Quando associada à manipulação de algoritmos ou a uma campanha de desinformação orquestrada, essa difusão pode interferir em processos eleitorais, referendos ou debates públicos cruciais.
A própria economia da atenção, em que cliques e reacções se traduzem em valor monetário ou estatuto social, incentiva a criação de títulos sensacionalistas e conteúdos extremos, que facilmente desencadeiam reacções emotivas. Esta lógica comercial, assente na competição constante por visualizações, pode favorecer uma propaganda que aposta na divisão, no choque e na polémica, em detrimento de análises mais ponderadas ou baseadas em factos sólidos.
Perante este cenário, a ideia de “controlo” da propaganda perde contornos nítidos. Não existe uma única entidade que detenha o poder de manipular a totalidade da informação, como acontecia num regime totalitário; pelo contrário, o poder fragmenta-se, surgindo múltiplos produtores de propaganda, desde pequenos grupos de interesse até grandes empresas e organizações políticas. A ausência de uma regulação eficaz, aliada à dificuldade de responsabilizar autores anónimos ou espalhados por diferentes jurisdições, torna o ambiente online complexo e, por vezes, propício à instrumentalização política.
A resposta a estes desafios implica, portanto, uma abordagem multifacetada: por um lado, a necessidade de políticas de transparência e regulação que envolvam as plataformas digitais; por outro, o fortalecimento da literacia digital dos cidadãos, para que cada indivíduo possa avaliar criticamente aquilo que lê, vê ou partilha. Sem estes dois pilares — regulação e educação — a transição para a era digital continuará a expor as sociedades a campanhas de manipulação e desinformação, cuja propagação pode ter impactos profundos na democracia e na coesão social.
O Papel da Inteligência Artificial na Nova Propaganda
A expansão da inteligência artificial (IA) nos últimos anos alterou profundamente a forma como a propaganda política é produzida, distribuída e consumida. Se, por um lado, a IA possibilita avanços notáveis em áreas como a análise de grandes volumes de dados ou a criação de conteúdos inovadores, por outro lado, traz consigo riscos consideráveis para o debate democrático. Plataformas de grande escala, como Facebook, YouTube ou TikTok, encontram nesta tecnologia um meio de incrementar a personalização de conteúdos e de intensificar a acção de grupos que pretendem moldar opiniões de forma subtil ou explícita.
Algoritmos de Recomendação
Os algoritmos de recomendação utilizados pelas maiores redes sociais e serviços de streaming têm como objectivo principal manter os utilizadores interessados, apresentando conteúdos que lhes sejam apelativos. Embora esta estratégia possa melhorar a experiência individual, gera igualmente “bolhas informativas” que reforçam convicções pré-existentes. Quando uma pessoa vê maioritariamente conteúdos que confirmam as suas ideias, tende a encarar versões alternativas dos factos como menos legítimas ou mesmo ameaçadoras. Este mecanismo de fragmentação das audiências pode ser explorado por grupos que procuram disseminar propaganda, aproveitando a tendência para a polarização e para a rejeição do diálogo. Ao acentuar discursos sensacionalistas ou extremistas que geram elevado envolvimento, os algoritmos contribuem para um ambiente propício à manipulação, disfarçada de recomendação personalizada.
Criação de Conteúdo Sintético
A IA também se destaca na geração de conteúdos audiovisuais altamente realistas, com destaque para as tecnologias de deepfake. A capacidade de criar vídeos ou áudios em que figuras públicas parecem dizer ou fazer algo que, na verdade, nunca aconteceu, compromete seriamente a confiança na prova visual, outrora considerada uma das formas mais credíveis de testemunho. Esses materiais falsificados podem ser utilizados em campanhas de difamação, para manipular eleições ou para fomentar discórdia, uma vez que podem convencer as audiências de forma rápida e contundente. A sofisticação crescente destas ferramentas de edição, aliada à dificuldade em detectar a sua natureza enganosa, coloca a sociedade perante um desafio colossal: como garantir que as imagens e sons que consumimos correspondem efectivamente à realidade?
Microtargeting Político
Uma outra dimensão essencial do impacto da IA na propaganda é o microtargeting, que consiste na segmentação muito precisa de públicos com base em dados pessoais. Campanhas políticas podem, deste modo, enviar mensagens variadas e adaptadas a cada grupo, explorando as suas ansiedades, preferências ou esperanças. A informação recolhida através de cookies, formulários ou interacções nas redes sociais revela perfis detalhados dos utilizadores, o que permite desenvolver anúncios específicos que falem directamente aos seus valores e anseios. Esta abordagem torna a propaganda mais eficaz, na medida em que cada eleitor recebe a narrativa pensada à sua medida, sem se aperceber do grau de manipulação envolvido. A natureza personalizada das mensagens, invisíveis para quem não faz parte daquele segmento-alvo, dificulta ainda mais o escrutínio público e a responsabilização dos autores.
A convergência destas três dinâmicas — algoritmos de recomendação, conteúdo sintético e microtargeting — resulta num cenário inédito de persuasão política, onde a velocidade de propagação da desinformação e a multiplicidade de actores implicados colocam em causa a capacidade de discernimento do cidadão comum. As estratégias de propaganda digital tornam-se, assim, cada vez mais sofisticadas e dificilmente detectáveis, levantando questões urgentes sobre ética, regulação e literacia mediática. Sem uma resposta clara e coordenada a esses desafios, o potencial de manipulação continua a crescer, ameaçando a fiabilidade do debate público e a essência do processo democrático.
Desafios e Necessidade de Regulação
A evolução da propaganda política evidencia que, a par dos benefícios trazidos pela democratização da comunicação online, existe um risco crescente de manipulação e radicalização. Neste contexto, surgem questões centrais relacionadas com a protecção do debate público, a liberdade de expressão e a responsabilidade das empresas tecnológicas. A forma de regular conteúdos enganadores sem comprometer a pluralidade de vozes nem instaurar censura é, hoje, um dos maiores dilemas enfrentados por legisladores e pela sociedade civil.
A procura de mecanismos regulatórios que exijam mais transparência aos algoritmos de recomendação tem sido uma das propostas mais debatidas. Caso as plataformas digitais sejam legalmente obrigadas a informar os utilizadores sobre os critérios que determinam o que estes visualizam, poderá ser mais simples detectar, e eventualmente impedir, a amplificação de conteúdos manipuladores. Além disso, tornar claros os processos de moderação e permitir auditorias independentes poderia aumentar a confiança dos cidadãos na imparcialidade das redes sociais.
No entanto, qualquer tentativa de regulação deve equilibrar a necessidade de segurança informativa com a salvaguarda da liberdade de expressão, princípio fundamental das sociedades democráticas. Uma intervenção estatal demasiado restritiva pode facilmente degenerar em censura, com graves impactos para os direitos individuais e para a capacidade de participação no espaço público. Por outro lado, a ausência total de regras deixa os utilizadores expostos a práticas abusivas de actores que se aproveitam da ausência de limites para difundir desinformação e discursos de ódio.
Nesta linha, as iniciativas de alfabetização mediática emergem como medidas complementares essenciais. Ao ensinar métodos de verificação de factos, análise de fontes e identificação de manipulações, é possível fortalecer a resiliência dos cidadãos perante eventuais campanhas de propaganda ou desinformação. Sem uma opinião pública informada e atenta, torna-se difícil travar a disseminação de conteúdos nocivos, por mais avançadas que sejam as ferramentas de regulação ou de controlo. Assim, a formação contínua ao longo de todo o percurso educativo e a sensibilização do público adulto podem funcionar como o primeiro escudo contra a manipulação na era digital.
Em suma, é perante esta realidade em constante mutação que se desenha a necessidade urgente de novas políticas, tanto tecnológicas como formativas. O objectivo passa por garantir um ambiente online onde a troca de ideias seja livre, mas protegida de fraudes, manipulações e ataques deliberados à coesão social. O futuro da comunicação política requer, pois, uma abordagem colaborativa, em que Estados, plataformas, especialistas e cidadãos cooperem na construção de regras e práticas que preservem a democracia e a integridade do debate público.
A Importância da Literacia Digital e Mediática
Tal como noutras épocas, o combate à propaganda não se esgota na regulamentação; é igualmente necessário apostar na formação e consciencialização das pessoas. Num cenário em que informações e desinformações circulam de forma acelerada, é cada vez mais crucial que os cidadãos sejam capazes de avaliar a fiabilidade das fontes, de cruzar dados e de reconhecer as diferentes técnicas de manipulação que possam ser empregues por agentes mal-intencionados.
Neste sentido, a educação desempenha um papel decisivo desde a infância. Quando se explica às gerações mais novas o funcionamento dos algoritmos, a forma como as redes sociais seleccionam e promovem conteúdos ou as maneiras de identificar sinais de alerta em informação potencialmente enganosa, está-se a construir um alicerce sólido de defesa contra a desinformação. Adquirir este tipo de literacia não implica apenas memorizar ferramentas ou fact-checkers, mas desenvolver uma postura de questionamento, de cepticismo saudável e de abertura ao confronto de ideias.
O hábito de confrontar diferentes perspectivas, de ler publicações de orientação diversa ou de discutir tópicos com quem pensa de forma distinta, ajuda a criar uma visão mais alargada da realidade. Este processo reduz a probabilidade de cada indivíduo ficar confinado a uma “bolha” informativa ou cair em armadilhas retóricas que exploram emoções básicas, como o medo ou a raiva. Desta maneira, a sociedade torna-se progressivamente mais resiliente às investidas de grupos que tentam manipular narrativas ou distorcer factos em benefício próprio.
A literacia digital e mediática, portanto, não se limita ao domínio de ferramentas tecnológicas ou à capacidade de usar redes sociais. Trata-se de fomentar um olhar crítico sobre o que consumimos e partilhamos no ambiente virtual e até no espaço público. Graças a esta postura activa e consciente, os indivíduos conseguem distinguir mais facilmente a informação fiável das campanhas de manipulação, bem como identificar quem são os verdadeiros promotores de determinadas mensagens. Em última análise, esta solidez crítica é o que garante que, mesmo na era do digital, os valores democráticos e a veracidade dos factos se mantenham como pilares essenciais da nossa convivência social.
Conclusão
Ao percorrermos o caminho da propaganda, desde o controlo totalitário do passado até às modernas técnicas baseadas em IA, verificamos que as estratégias de persuasão permanecem centrais na dinâmica política. Mudaram as ferramentas e os canais, mas a essência mantém-se: influenciar corações e mentes para alcançar ou manter o poder.
Na era digital, onde a informação circula a uma velocidade estonteante e as fronteiras entre a verdade e a manipulação são cada vez mais ténues, a vigilância colectiva torna-se imprescindível. As lições do passado e a consciência crítica do presente podem ajudar-nos a resistir aos excessos da propaganda, preservando a pluralidade e a liberdade de expressão. O desafio cabe não só às entidades reguladoras ou às empresas tecnológicas, mas a cada um de nós enquanto utilizador e cidadão responsável.
Meta descrição: A propaganda evoluiu do controlo totalitário à manipulação digital por IA. Descobre os riscos, desafios e o papel da literacia mediática no século XXI.
Este artigo faz parte de uma série sobre a propaganda nazi e as suas implicações contemporâneas, desenvolvida como parte do meu projeto final de pós-graduação em Comunicação e Inteligência Artificial na Universidade Católica Portuguesa.









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